Os meios de comunicação noticiam a todo instante a violências envolvendo jovens. Jovens que assassinam ou mandam assassinar até mesmo os pais. Nos aterroriza fantasma de termos um filho que vimos nascer e crescer, que fizemos tudo o que pudemos, de repente sendo manchetes nas páginas policiais; pior ainda se a notícias envolver nossos familiares. Daí a pergunta: onde foi que eu errei? este não é meu filho, não pode ser aquele que eu vi crescer. Na verdade a violência familiar também tem história. O que vemos através dos meios de comunicação é apenas as conseqüências dos fatos que sucederam no tempo.
Podemos analisar a partir das condições contemporâneas de vida na sociedade, principalmente no meio urbano, onde os meios de comunicação têm grande poder de penetração e sua interferência na formação da juventude é facilmente perceptível até mesmo pelo senso comum. Vamos recordar. Na década de 50, do século passado, tínhamos uma menos urbana que rural. Na década de 60 começa o processo de inversão. Na década de 70 processo está consumado. Existem muito mais brasileiros nos espaços urbanos que no meio rural. Porém tem-se uma situação delicada em construção. Até a década de 60 sabe-se claramente quem é o pai, quem é a mãe, quem são os filhos, tios, visinhos, compadres, primos etc. Todos têm funções definidas e a estrutura social encontrava-se estabilizada. A educação era universalizada, mas os pais acompanhavam os filhos até a idade adulta. Ainda que um pai desse uma surra em um filho, dali alguma horas ajudando os pais em alguma atividade. A todo instante se ouvia “faça assim”, “faça de outro jeito”, “olhe como estou fazendo”. Assim os filhos aprendiam com os pais, porque eles estavam sempre presentes. Os pais trocavam informações com os visinhos, compadres, parentes. A troca de experiências era um meio de formação.
Com a urbanização da sociedade as famílias mudam para as cidades, levam seus valores construídos numa sociedade onde as trocas de experiências serviam de “argamassa” para a unidade social. Na vida urbana, o pai, visto inicialmente como sendo o provedor familiar, já não pode mais levar seu filho junto para o trabalho. Volta depois de uma jornada estressante, sentam diante de um televisor onde todos têm a obrigação de ficar calado. Não tem mais os visinhos que tenha a mesma história. Na maioria das vezes, se quer conhece os visinhos. Não tem com quem partilhar suas angustias e a solidão urbana toma conta. Os valores historicamente construídos começam a entrar em decadência porque eram valores que dependiam de uma realimentação constante e que o espaço urbano não oferece. Além disso, a vida na cidade exige mais dinheiro, enquanto um trabalhador quase sempre sem qualificação, tem poucas chances de ganhar o suficiente para manter a família. Qual a saída, a mãe precisa trabalhar para melhorar a renda familiar e possibilitar um mínimo de condição financeira para continuar vivendo. Daí não é mais apenas o pai que fica longe da família, agora a mãe também tem a presença reduzida.
Ao mesmo tempo, os meios de comunicação tiveram um crescimento exponencial, principalmente a televisão, e que passa atingir diretamente quase a totalidade das famílias. Conseqüentemente os filhos que no passado tinham os pais, parentes, visinhos como fonte de valores, tem ao alcance das mãos uma fábrica de desejos que não respeita os valores. Ao contrário, a televisão projeta valores norteados pelo consumismo que sustenta o sistema capitalista. Desejos que em sua maioria não passa de sonhos. Sonhos que não se realizam e frustram os filhos, os pais e qualquer pessoa que tenha a televisão como fonte principal de lazer e informação.
Na verdade, temos uma geração de pessoas frustradas. De avós que foram empurrados do interior aos grandes centros e Produziram filhos que não tiveram os valores estruturados suficientemente para sustentar o impacto do desejo gerado em relação capacidade econômica de satisfação. Que hoje geram filhos para serem educados pelos filmes e desenhos animados que exploram a violência ilimitada, pelos programas que vendem a felicidade como se fosse algo que se encontra nos fastfood. Logo, quem não tem dinheiro não pode ser feliz. Como conseqüência temos uma geração de pais e mães com sua estrutura de valores morais frouxa. Que vivem distante dos filhos embora convivam na mesma casa.
Chegamos a uma situação clara. A família da década de 50 e 60 não existe mais. Aquele modelo de família morreu. E morreria mesmo, aquele modelo não suportou a solidão contraditória da dispersão da convivência urbana. Porém, a sociedade contemporânea não colocou outro modelo no lugar. Estamos diante de uma sociedade desestruturada que não valoriza o ser humano como um fim em si mesmo. A família com aquele conjunto de valores importantíssimos para o vigor social tais como liberdade de ir e vir, solidariedade, humanidade, co-responsabilidade estão diluídos em discursos. Como conseqüência vemos jovens, inclusive muitos com boa formação cultural, mas que não dá valor a própria vida e não dará valor a vida dos outros. Bem, aonde chegamos nós sabemos, mas sabemos para onde vamos? Se alguém souber por favor me informe.
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