Confesso meu crime:
pensei que trabalhar de sol a sol.
me deixaria rico.
Confesso que não conheci o lucro,
pensei que com os meus braços
conseguiria tudo.
Confesso.
Emagreci tudo que foi possível
para melhorar de vida;
na minha marmita
sempre teve apenas arroz e feijão.
Confesso meu crime maior:
não tive coragem de roubar.
Mas justifico minha inocência:
pensava que roubar era imoral.
Confesso que fugi da greve
como o diabo foge da cruz
por entender que o patrão
tinha boas intenções.
Acreditei que o patrão dizia a verdade
quando disse que não me a daria aumento
por falta de dinheiro.
Sempre acreditei
que para melhorar meu salário
tinha que fazer hora extra.
Confesso que fui ingênuo
acreditando no que me diziam.
Prometo não mais acreditar.
Sou réu confesso
Confesso que não estudei para trabalhar
e por isso sou culpado.
Meu crime maior ainda.
Fiz com que meus filhos estudassem
para que não baixassem a cabeça
diante de qualquer estúpido
que parece conhecer alguma coisa.
Confesso que fui irresponsável
quando pensei que alguém
poderia lutar por mim.
Confesso que falei muitas verdades
que não deveriam ser ditas
e por isso sou culpado
Peço clemência
pela minha ingenuidade.
Oia genti, tai meu barraco,
min’a mué e meus fiinhus.
dispois di tê durmido na carsada
iscuitado muito a barriga roncá
cunsigui fazê minha chossa
du jeitu qui lá na roça
nem mio dá pa guardá
mais a genti vai viveno
do jeitu qui u ventu dá.
Já fui um home filiz,
puis tinha minha terrinha
minha casa pa morá.
Um dia pa cidadi
I num cunhicia nada
qui jeitu di acertá;
todu mundu mi pidia
cartera profissioná.
Minha situação já podi imaginá,
Eu só aprindi assina u nomi
pa pudê votá;
mais mi orguoio im dizê
qui di puxa inchada
eu sô um profissioná.
Tem certas coisas
qui nem gostu di pensá
memo seno um homi
mais dá vontadi chorá.
As veis óio essis prédios
e dá vontadi di chorá
mar chego na portá
vem arguém mi pirguntá
o qui é que tô quereno
té pensam qui vô robá.
Carreg’um sintimento
qui nem posso ispricá.
Imagino i us meus fios
comé qui vai ficá.
pur mais qui eu seja direito
nhingem qué mi aceitá.
Dispois diz q’um home é bandido
quandu cumeça robá;
todu mundu joga pedra
i diz qui tem qui matá
eu tamem dizia isso sem imaginá
qui num siria pussivi
a fomi aguentá.
Pur tudu issu
da sorte num vô recramá
mais recramo dus homi
qui nun sabi governá
qui pisa nus pobres
sem nada esplicá.
queru qu’essis marditu
inda vá se arrebentá.
Aqui nu meu barraquinhu
co’o minha mué i meus fiinho
vô lutanu co’a sorti
sabeno quium dia a morti
cum certeza vai mi levá.
Mais tenhu fé nu Sarvadô
qui nem seja no céu
um dia vô tê lugá.
Me dá uma, Pedro
Zé, um trago aí
Uma da boa, Joaquim
Dá mais uma, Chico
o Paulo vai pagar
Eram meus amigos
Sempre era começo
Nunca se vê o fim
Nunca se sabe do fim
enquanto ele não chega
era meu fim
Quem paga o pato sou eu.
Era meu amigo.
Me abraçava sem cerimônia
quando tudo girava
ele era mais
Com um pé nas nuvens
outro na terra
Parecia o Pensador de Rodin
via tudo lá de cima
Hoje o buraco é lá em baixo.
Agora chega
de poesia encomendada
leve a caneta
o lápis
computador
nem pensar.
Quero o suingui das palavras
ao vento
ao relento
Sem lamento
A que serve a poesia imatura
com frescura
Quero mesmo
é poesia in natura.
Venha a esse mundo
vagabundo,
vira-mundo.
Viver
é história
glória
da memória.
Não seja
sem peleja
e veja
Ao meu lado
amada
desejada.
Ah, que vida louca!
Ainda que seja pouca.
É caminho sem destino
Mil encruzilhadas
em destino.
Quando tudo parece estar certo
lá vem o azar para mais perto.
Assim o homem amanhece
antes da noite desaparece
sem deixar nem vestígio
Não adianta sonhar prestígio.
Quem me dera saber
se a vida
é viver.
Taí a raiz da tristeza
mas a falta de rumo
é beleza.
Estamos ao léu, à própria sorte
só há uma certeza
a certeza da morte.
Mesmo que não seja quisto
Viver não é previsto.
O amor não tem limite
nasce com o sol da manhã.
Nasce quando a ciência não se faz,
ou se desfaz.
Cresce, aparece,
se for amor não desaparece.
Esse é amor,
é amar de qualquer jeito.
É ser do jeito que é,
é a vida por entre montes.
A caminhada no poente
é um pedaço da vida.
É a vida.
A PRIMEIRA VEZ
De onde vem esse amor
Que ama sem começo
No começo, já sinto o fim
da ansiedade, da saudade
de um amor que não se vai
Que fica cortejando estrelas
olha a lua como se fosse
a primeira vez.
De onde vem essa dor
que dói só de pensar no fim
e vai pra dentro de mim
lá repousa esquecida
É isso o amor eterno
Ama como se fosse o último
Ainda o que não fosse o único.
O JEITO DO AMOR
Amar é assim mesmo
exigente com a gente
Não quero perder o fruto maduro
que’scorre seu mel pelo queixo
adentra ao meu corpo
exala o cheiro de amor
saliva minha boca
e salta dentro de mim.
Amor é sempre recomeço
Amanhece lá dentro da alma
É motivo para endurecer-se
a espera de um abraço.
ETERNO ENQUANTO DURA
Cadê os beijos molhados pra vida toda
tantas vezes prometera
Dizia que cada dia estava mais perto
a vejo tão distante
Para onde foram os abraços de sábado á noite
os almoços de Domingo
as tardes no parque
Aonde foi o amor qu’estava nascendo
pelo visto, morrendo
Não importava que todos viam
hoje foges de mim
Sem dizer o que aconteceu
esse amor floresceu, deu fruto
mas está em você
ou não
Só você pode responder
porque foges de mim.
FOI O PEDRO
Dessa vez foi o Pedro
O poeta parou
Parou de falar de seca
Das plumas do cão
Parou de falar das pedras
Da areia do olhar deserto
Parou de falar de fome
Do corpo passou a fome
Aos vermes que os consome
Também passara a fome
Como tantos severinos
Chegou seu dia de sorte
Cabral de poucas palavras
Boca de poucos sorrisos
Não fala mais da morte
Nem do rio em aflição
É ELE
eu sei que é
Um não sei quem
não sei de onde
que perdeu o bonde
Calou a fala
e parou na sala
É ele
que viveu na dor
a fina flor de seu enredo
O desemprego
em apego aos seus rebentos
Viveu ao vento
os seus lamentos
Tornou-se imundo
o vagamundo
de pé no chão
O cidadão que pedia a mão
encontrou na vida
a bala bandida
Bala perdida matou a fome
de quem sem nome
quis ser homem
algum dia
E hoje na pedra fria
sem agonia
esta paráfrase
aqui jaz sem lápide.
BURUNDANGA
Eis o homem, é o primeiro.
falava como ninguém,
É um burundanga,
pária de nascença
sempre com a bandeira de táxi
livre hasteada
comendo caviar com polenta
Viajou o mundo sem sair de onde nasceu
conheceu tudo
mas nunca soube o que era
Viveu sempre na opulência
de um banco de praça
É ele, é o primeiro do fim da lista
é puro destino, parece homem
mas é apenas um qualquer
que hoje deixa uma pista
Falava como ninguém
hoje só o eco de sua voz entoa
seu próprio réquiem
Não chore por ele, foi desta pra melhor
quem choraria por ele?
é apenas um a menos na estatística
Sei lá, mas isso não é loucura
é apenas um nó na gravata
que cerrou seu destino
ainda que desatino
é sina de todos nós.
É O FIM
Este é o fim deste poema
um ponto e pronto
É o fim da alegria agonizante
que a criatura impõe criador.
Ponto é pronto
é o fim do parto.
Agora parte livre
filho é filho do mundo
vai por o ponto em seu lugar
Onde vai parar o ponto
não me interessa o destino
basta pô-lo no mundo
E começa seu caminho
longe de ser o fim.
O FUTURO DO PRESENTE
Essa vida é danada
Na passa sem ser visto
Há quem veja no futuro
O que acontece no escuro
Escrito com as letras do passado.
Tudo muda a cada dia
Nada é do mesmo jeito
Num está frio noutro já esquenta
Mas não há presente sem sonho
Nem futuro perfeito.
PELO SANGUE A LETRA ENTRA
Ele era o tio
ela, a tia
régua na mão
na ponta do nariz, o óculos
Era o mestre
ensinava, só ele sabia
Era o poder, ninguém falava mais alto
Tinha o castigo certo:
repetir a palavra certa por 10, 40, 200 vezes
o caroço de milho
a tampinha de garrafa
a palmatória
Ai de mim nesse tempo!
Se eu fosse professor ou aluno
bem ou mal
seria passado
de outra eras.
UMA COISA
Já não sei
se sou poeta
ou louco
O melhor
sou uma coisa
uma coisa que lê
que vê
mas não entende
Sei que não entendo
é melhor saber
que não sei
assim não preciso
ser qualquer coisa.
A felicidade é um sonho
é o deslizar das mãos
olhos nos olhos ...
As apalpadelas amáveis
que acalenta o coração.
Felicidade
é caminhar pelo mato
e dividir a sombra
deitar nas folhas secas
sentir o frio do chão
Perceber teu corpo
invadindo o meu
e fazendo marcas.
Ouvir o amor rolar
dentro do coração.
Felicidade
é rasgar a censura
e fazer de cada momento
uma eternidade.
A CHAVE
Onde deixei a chave
a chave da porta
da porta da casa
da casa de campo
da casa no morro
Cadê a chave
não quero destino
quero uma casa no campo
num morro
escolhida pra mim
Onde não há chave
pra que chave
se meu vira-lata
vela por mim.
O NADA TAMBÉM É
Não basta ser Kant
Einstein
Chaplim
ou Chopin
Tem que ser um nada
ser futuro
sem querer ser
pra ser alguém
pra ser feliz
Ainda que tudo se desfaça
tem que ser
ainda que um nada
pra ser feliz.
SOLIDADÃO DA DOIS
Minha casa
Minha asa
Nossa casa
Nossa asa
Não seria minha
se não fosse nossa
Acontece que amanhece
lá vamos nós
Cada um é cada um
Na volta
somos nós.
A luz de teus olhos
dá brilho
ao gosto bom de carinho
na tua arte de sorrir
faz-se menina
tua força mulher
dos teus gestos
poesia.
Olhos nos olhos
pulsam aos sonhos
as mãos
animam os lábios
Quase loucura
mas é tão real
como os beijos
que procedem
em busca da alma
Diminui a distância
faz de nós
duas crianças
Correndo a passos firmes
apostando beijos
quase inocente
Perde-se em desejos.
Solte teus cabelos ao vento
degusta-me em teus beijos
Quero embebedar do mel
de tuas entranhas
Sentir teu colo na areia da praia
rolar no solo até manhãzinha
Despida em sonhos
sentir na alma tuas mãos atrevidas
afagando lembranças
da minha pele.
Olhando estrelas
sentia nos pés
o mundo pra nós
Das palavras
vestia sonhos
cada abraço tudo novo
esculpe outros laços.
Quis saber daqueles olhos
que seguiam aos meus
pelas ruelas dos sonhos.
Defrontei
com uma flor tão bela
deslizando no rosto.
Fiz apenas um gesto
os olhos pararam
as mãos abriram
as pétalas caíram
aos meus pés.
Os olhos que me seguiam
agora iluminam
a ruela dos sonhos.
Uma árvore,
uma teia.
Quanto galho,
é bela.
Mais uma,
mais uma,
mais tantas.
Uma festa,
é floresta.
Lá no fundo
a presença oculta
o que já era
e não sabia
Bastava uma lâmpada
uma luz qualquer
a quem tiver
a escuridão.
No princípio era eu
depois meu pai
hoje somos muitos
muito os imbecis
que acredita no que vê
Bem, nada é perfeito
No principio era eu
feito de qualquer jeito
Hoje não se vê
os que não vê
Mas tudo parece muito mais perfeito
quando não se vê perfeitamente.
Pegue o telefone
ligue pra ela
e diga: sou um idiota
Se não for ela a atender
diga assim mesmo
Se ela duvidar
não a procure mais
Dois idiotas não
nunca serão
inteligentes juntos.
ONDE TUDO ACABOU
De cima do morro
onde nada se vê
senão o escuro macabro na lama frienta
inseguro passos
seguros da noite funérea
que desintegra a luz.
A luzeta esconde
os olhares latejantes
nas paredes agrestes
homogeneíza cadavericamente
a realidade opaca
Lenta voz
sussurro coletivo
à habilidade estranhenta
que empenhora a vida
A chama contorce
aos espasmos sonâmbulos
dos passos peçonhentos
Relampejante a noite agoniza
ventos em pompa
enfurnesse o braseiro
empenhorando o ânimo
sol desponta
do céu lacrimejante
raios ensurdecidos
anunciam nebulosamente
Resta descer
a encrudescente montanha.
É DIA DE DIZER TE AMO
Amanhã é dia
dia de trabalho
de aniversário
dia de esquecer a idade
Não é dia de saudade
Nem, de novidade
Afinal
todo ano nova idade
É dia de dizer...
dizer...
Não sei como dizer
como não
sei como
vou dizer apenas: Te amo!!
Ontem me olhavas na transparência
me olhava
não me vias,
hoje me vês
mas não ousas
Assim mutilas a minha alma
é isto que queres
minha agonia
conseguistes
Saiba que me feres
mas é preciso ser
mais você
para engolir – me
despedaçar-me
Ainda sou muito mais eu
QUEM É
“Meu Deus! É um homem.”
Porque espanto ao meu lamento
Sem desalento vou galgando
meu calvário
O teu espanto não me’spanca
Nem eu acredito
qu’este sou eu
Na tua seda
me dê a costa
me deixe em paz
Não sou o nimbo
a esta ninfa da desrazão
Qu’eu seja um fantasma da imaginação
Não esqueça de pedir desculpas
ao teu anjo da guarda
por prostituíres teus olhares.
CHEIRO DE RELVA
Alvorada ainda existe
com sabor de manhã
além da floresta de concreto
Esperar o amanhecer
olhar as ruas apertadas
sentir o gosto do orvalho
escorrendo das folhas
Percorrendo os paralelepípedos
que levam até a igreja
lá no alto
onde as árvores transbordam vida
os pardais fazem seu concerto matinal
os passarinhos dançam
ao som de seus cantos
provando a liberdade
De repente são interrompidos
não voam longe
apenas um cachorro
que guarda a praça
que passou fazendo a ronda
Nas portas um prego
onde o padeiro enrosca o pão
quando ainda sem luz
e nem o guarda rouba
Nada atrapalha o amanhecer
Ao longe um som bem diferente
não é o som dos pássaros
nem dos galos afinando a voz
é o som da cachoeira
no rio que contorna a cidade
sinalizando a simplicidade
O Banco abre cedinho
não atende depósito
nem pagamento
continua aberto
pra entrar o sabor de manhã
como são descuidados!
No bar o rádio louva
sertanejamente a viola
Se chove o cheiro de terra
perfuma nebulosamente
Se for manhã o ar é perfumado
com o cheiro de relva
Isso é o amanhecer
apreciar o sol desvirginando
a natureza
sorridente atrás das árvores
Alvorada ainda existe
com sabor de manhã.
Nem adianta
É mais de lado
Com um relâmpago
Despeja
Do lado de cima
A sina
Do lado de baixo
Esculacho
Assim o nobre
Das feiras livres
Nunca mais vê
DIA DE PROVA
Um dia
um sonho
Já cresci
agora vou ser
Mais uma vez
tenho que mostrar
tenho que me escancarar
pra continuar sonhando
Um dia
um sonho
pra sempre pesadelo.
ARTE DE AMAR
Pensei que ainda existia
um poeta sem dono
Que ria da paixão alheia
Mas uma pedra enorme
rolou em meu caminho
e me chama a vida.
Amor que de longe sonhara
Tudo dá na sua hora
quem sabe seja agora
a hora de despir poesia.
Pra viver esse amor
precisa ser ousado
É vestir pelo avesso
Não precisa ser tarado
mas deve dar tudo de si.
Deve ser criança
falar de desejo
roubar milhares de beijos
e sonhar com as mãos
Ousar no balanço
dos seios em liberdade
Tem que olhar o vento
esquecer do tempo
e falar de amor.
Não precisa ser poeta
pra sentir das mãos
os sonhos fluírem
Precisa ser arquiteto
da pedra que rola
construir castelos amados
com olhos vicejantes
Rir da paixão à meia
Quem me dera
que fosse agora
ter dona a poesia.
OLHOS DA POESIA
Um olho pro céu, outro pra terra
O poeta vive nos versos
dá nome as estrelas
a lua apelidada de namorada
Vê o mundo com alma
raciocina o segredo das palavras
desveladas nos versos.
Poeta não vive dos sonhos
Dos sonhos vive a poesia
que nasce em cada verso.
Ser poeta ama o amor
que deflora a amada
em noite de lua cheia
Traz nas mãos olhos da poesia
Oferece do mel doce dos sonhos
a quem traduza em versos
a gota d’água equilibrando
na flor dos beijos molhados.
ONTEM E AMANHÃ
O sol não espera
desta pedra ele se põe
Meus olhos
perdem-se das matas
Meio-mundo parado
sonhando com um novo dia
Tudo acontece novamente
outra vez no horizonte
Como nunca o sol acontece
sem precisar de mim.
É TUDO LOUCO
De tudo um pouco
Assim que sobe
Já ganha robe
Não vê em baixo
Mantém o facho
Enverga a sina
Sem largar a m’ina
Segura a teta
Enche a maleta
Nem adianta
Se o que encanta
Não é o guisado
Mas o babado
Ainda lacônico
De forma irônica
Lembr’os lacaios
Que de soslaio
Olha pros outros
Vendo potros.
Num canto da praça
Um palhaço
Alisa a massa
Ela, o maço
O que se passa
Se o chumaço
Que ela roça
Num passo
Se desfaça
É massa.
TUDO PASSA
Queria que o rio parasse
veria melhor a cachoeira
Águas rolando peixes
passando tudo passa
Na frente
um redemoinho
outra cachoeira
À beira do rio
o tempo pára
A cachoeira não passa
mas o rio não é o mesmo.
BRINCADEIRA
Chegou devagarzinho
foi entrando
sem dizer nada
Teus olhos sorriam
quando a porta se fechou
ao vento de teus passos
Ofereceu teus braços
quis brincar de amor
sem dizer nada
Beijos arrepiados
fez-me sonhar
Ainda ouço a voz de teus passos
dentro de mim.
TARDE DE DOMINGO
Passos lentos
algum lugar
O vento balança os cabelos
do corpo a chama esvai
Um lago
uma árvore
uma pedra
e a vontade
Sorriso calmo
tudo é ternura
mãos afagam os cabelos
sentado à lua
vagando pelo teu corpo.
É AGORA
Que as estrelas me vejam
Os corpos deslizam
expiração sai
das entranhas
Os olhares se unem
acaricia a alma
divide o amor
As portas da emoção
deixa escapar
o afresco das sombras
Suaviza a força estridente
contida nos olhares difusos
Em suspense
enlaça
afagam os sentimentos
Pupilas fitadas
nada é tudo
tudo é pouco.
De que vale a grana
que faz da fama
quando a dama
disser que ama.
O calor da chana
isto que soma
pra que o pomo
sinta a chama.
Havendo gana
se faz na grama
se faz na lama
o que faz na cama.
RAP DO PAU
Matei a cobra
e mostrei o pau
para uma m’ina
que’stava passando
Ela assustou
com a grossura
mas ela gostou
do papo furado
Tirou a calcinha
pra me mostrar
sua etiqueta
Quis que’la me desse
mas nem deixou
que eu cheirasse
Ela foi embora
co’a calcinha molhada
na sua bolsinha
Eu fiquei tarado
De olho parado
no seu rebolado
com o pau na mão.
ILHA DE MEL
Que fortaleza!
Esses cabelos
são correntes que aprisionam
Seus olhos
parecem canhões a disparar
Esse corpo moldado
tortura qualquer homem
de bom gosto
Bronzeado equatorial
...é a Fortaleza dos Prazeres!
AFAGOS
Como é bonito
o sol no horizonte
clareando vales e montes
É bonito contemplar
está grandeza
sabendo que a natureza
foi feita com tanto amor
Só pra mim, só pra você
Quanto amor deve embalar a vida
... é esperança, é calor.
É carinho de uma criança
Ó vida!
Quem te fez tão bela
Fez você
com toda certeza
de ter amor, carinho
É você que faz feliz.
Então posso dizer: te amo!
Não adianta
sussurros
Ouvir dos lábios
a fala
de corpo inteiro
De repente
Amar é rolar em sonhos
pisar no solo
segurar nas mãos
o infinito
Onde o calor dá o tom
basta soltar o sol
das entranhas
que mãos dirigem os lábios
no céu da boca
aparece o sol
como um sorriso
durante o sono
Basta ouvir
de corpo inteiro
o que os lábios não falam.
Uma leoa soberana
quando o macho se aproxima
a gata melindrosa se assanha
e toda cheia de manha
o macho que se anima.
A leoa é fera de salto certeiro
é a maior pela sua audácia
Essa fera sorrateira
fulmina sua presa
Mas é tão dócil e manhosa
quando satisfaz seus desejos.
A leoa é fera
na defesa do ninho
Mas acalenta o filhote
e esbanja carinhos.
As maçãs tão polidas
crocantes e suaves
Tem sabor de carinho
do perfume que exala olhares
da janela os sonhos.
Mãos se perdem entre folhas vivas
ao escarlate dos lábios misturam
Tuas pálpebras-meninas cerram
ao cheiro de maçã.
Sei lá se há amor
é gosto de fruta molhada
mas é a felicidade
que mora dentro nós.
Quero sentir o gosto de céu
sentir o doce desse mel
sugado teus favos
teus lábios molhados.
Sei lá se é amor
se é carinho a mais
Mas é um sonho de vida
realizado em nós.
Queria que o rio parasse
veria melhor a cachoeira
águas rolando peixes passando
Nas águas caudalosas
esquecia que na frente
o redemoinho das águas
anunciava outra cachoeira
À beira do rio o tempo para
a cachoeira não passa
mas o rio não é o mesmo.
Dentro de um túnel
apareceu
insistente a cada passo
a cada abraço
Quis sentir meu corpo
entregar o seu
Construiu castelos de sonhos
cheio de realidade.
Uma gota d’água
beijos lá do fundo
sorrisos nua.
Agora sou mais feliz
sentindo a tua verdade
Chega de esconder defeitos
sei que és capaz
de errar, de perdoar
e esquecer a paixão.
Não precisas de mim
somos livres sabendo amar
Agora sei que no amor
não existe o tempo
que a cada momento
pode ser eterno.
Na cadência do amor
há lugar pra nós dois.
Vim pra dizer adeus
fecha a porta e sair.
Dizer que nada ouve
senão um sonho a relembrar.
Essas mãos que foram tuas
tens a saudade à mira.
Ante a escultura mais bela
desse olhar azulado
ainda me sinto nua
faça-me qu’eu vá embora
de um sinal que seja a rua.
(desmonta tudo agora)
a quê deixarei teus beijos?
Não.
Feche a porta e não digas nada
degusta-me em teus desejos.
Sentimentos
garantia fúnebre
de sofrimentos
Vertigem da insegurança
caldejante
Amarrota o cálice
de emoção
polido pelos ciúmes
Sentidos contorcidos
embrutece
vaidosa-mente
esse abismo dejeto
contorna o mundo
explode a inércia
desse Micro-Eu in-capaz.
NO FIM
Morto
à solidão dos pecados
quebra coração
fugitivo da morte
O sangue floresce rudemente
experiência sábia construção
Murmúrios vindo da ambição
busca jovial
entre as belezas
capta a delicadeza
transfigura a podridão mortífera.
TIC-TAC
Queria parar o tempo
apenas parei o relógio
O tic-tac sumiu
a noite chegou
Olhei a lua
quis uma estrela
só para mim
elas se foram
O tic-tac dentro de mim
não parou outro dia
não sou o mesmo.
Quem diz que homem não chora
quando o amor lateja
em sonhos a alma chora
e não há razão que enxugue
as lágrimas ocultas
onde olhares não vêem.
Gostaria que’stas lágrimas
fossem objetos de sussurros
Embriago deste licor
degusto-me deste veneno.
Enquanto puder eu choro
pelas benesses do amor.
Lágrimas são gotas de vida
qu’escorre pelas pegadas
Gosto da paixão venena
ainda que não seja amado.
Desta pedra o sol se põe
meus olhos perdem-se das matas
meio-mundo parado
sonhando com um novo dia
Tudo acontece novamente
outra vez no horizonte
como nunca o sol acontece
sem precisar de mim.
DALA
De olhos fechados
vejo alguém
entre os cabelos que balançam
os olhos brilhantes
sorriso calmo e palpitante
passos largos câmara lenta
braços abertos.
A emoção move a alma
de peito aberto e coração exposto
a distância diminui
Palavras não existem
Os corpos enlaçam
as mãos deslizam
os lábios se juntam
os olhos se fecham
Um jeito estranho
desloca das entranhas da paixão
As roupas incomodam
a loucura predomina
Na sombra
sobre a grama fresca
os corpos debruçam
Tudo é pouco
O suor umedece
o gosto de um sonho gerado
na beleza da vida.
LÁGRIMAS DE SANGUE
Oh vida singular
não sei porque existe
oh céus a morte
em nenhum mal consiste.
Os dias passam na desgraça
noites ermas a fustigar
Coração batendo estridente
a angústia a castigar.
O sonho enraizado
na certeza pressentida
de ter o sangue derramado.
Condensa as gotas de sangue
lágrimas de um olho nu
na relva desta manhã
Quem me dera
ser do poema
fonema
O nada que incomoda.
Que me dera
ser fonema
do poema
sem modos.
Um nada amado
à moda.
Passeando ao deserto
calor intenso
Sorriso aberto
lábios se colam
se calam
À beleza esculpida
as mãos navegam
Os corpos desnudam
Ao chão o céu é o limite.
Ainda soa no vento
o futuro das crianças.
Eis que a vejo soberanamente
saindo ao balanço dos seios
em direção aos sonhos
que contorna teus pés.
Nem sei aguardá-la no olhar
Desejo que sejas a última
a soar como tormenta
Como a brisa à beira do rio
inebria minha alma
Jogada em meus braços
esvoaça dentro de mim.
O sorriso alvo alumia
como e noite enluarada
tua sombra singela me acompanha
e atiça-me ao encontro do sol.
A filosofia da vida
não tem regras
nem sistemas
Cada verso faz sua parte
na arte de lapidar palavras
Razão na filosofia
não rima
com a paixão
Na poesia
a emoção de dizer
que há vida
no jogo das aparências
da realidade
do sono do sonho
Porque o rigor de filosofia
se na poesia da vida
os fonemas da existência
faz da vã filosofia
uma estrela cadente.
Esta vida é ao mesmo tempo
ingrata e desgraçada
ontem mesmo estava com ele
hoje já se foi
ontem fala de vida
hoje a vida fala dele
Nos caminhos pelos quais andaram Chaplim
Otelo e tantos desconhecidos
hoje só há caminho
se eles caminham por lá
por lá eu não posso andar
Essa vida é engraçada
é um jogo de baralho ao vento
é um jogo de xadrez na tempestade
quem não vive às metades
joga o jogo de verdade
Cada um que nasce
esta mais perto da morte
vida é corrosão desatino
contradição
só quem assume a morte
pode viver
Um dia a mais na vida
um dia a menos para a morte
Parece loucura mas não é
é muito bom por não ser eterno
ser passado no presente
ser museu natural
Dou lugar pro novo antes da partida
quando for não sei prá onde
e nem quero saber
a mim basta saber que vou.
A pele sedosa arrepia
nos toques sutis
afloram a imaginação
No fundo
umedece as mãos
Calentosamente denuncia
o desejo.
Olhos nos olhos
falam de tudo
do outro lado dos olhos
exercito uma ilusão.
A pele sedosa arrepia
nos toques sutis
afloram a imaginação
No fundo
umedece as mãos
Calentosamente denuncia
o desejo.
PARIÇÃO
Cuspido lá de dentro
cai um poema
indigesto
mas ta aí
depois de moído
pensamentos
escapuliu
um redemoinho
de palavras.
DIZENDONADA
Mais palavras
Mais verbos
Palavras a mais
e mais
se dizem
dizer o quê
Palavras masturbadas
comunicar o quê.
POEGONIA
Papel na mão
cabeça a mil.
Por onde começar
no calor da solidão
escava sentimentos
floresce o novo
dá forma a vida
rascunha o ser
Pobre poeta
incompreendido
rói osso pelado
Faz presente o tempo
no flui da vida.
ESSÊNCIA
poesia
poeta
Poesia
Poesia existe no olhar
no sorrir no chorar
de alegria ou
o sofrer
poesia regada a pranto
de quem por ela chora
Que seria do poeta
sem a Poesia!
Em teus braços
adormeço menina
O sonho acabou
dos desejos
o calor
Dos beijos
em sorrisos
marejem
Nos lábios
o gosto bom
de sonhos florescem
De nossos corpos
o suor se faz
Homem-Mulher
O perfume dos sonhos
virgemente exala
dos corpos palpitantes
deflora os limites
Faz florir dos olhos
Sonhos em vão
o cheiro de amor.
Fecho os olhos
pego estrelas com as mãos
Água caindo
massageia o corpo
desliza a chama
abro os olhos
solto as estrelas
de dentro de mim.
SONHO SÓ
Quis mudar o mundo
via tudo virado
Cada pega
fui jogado
malhado
amado
odiado
Hoje estou aqui
virado.
Quando se vai alegria
Vai a vida vai o sonho
Vai-se
a cada passo
Mais um frasco
abandonado
Um fiasco que vivia
Fica o gesto desse resto
Em soluço
transforma em poesia
a fumaça da viagem
é um sonho que passou.
Sonhos alma
na
s
palavras
soam
ao
vento
que de
r r
ama imagens
tosca-mente-poema.
Nas veias dos olhos teus
Lancei-me à grande cidade
Cidade de ruas nuas
Suas
Imensas luas
O céu vermelho me iluminou
Às luzes dos olhos meus.
Outra vez
caia em sonhos
imaginava maravilhas
O gosto na boca
outro beijo
Acordado à luz
não vejo nem sonho.
Um quê de loucura move os olhos
da alma às estrelas
Olhos da noite vê os sonhos
manifestar das mãos.
Há um quê de razão nessa loucura
que explode quem sou
De corpo inteiro
mergulha-se nos desejos
embebedados de paixão.
Te quero morena
de olhos fechados
Despida e amada
em plena manhã.
Te vi morena
colada em meu corpo
suada no rosto
sem voz sufocada
clamando beijos.
A tenho morena
de pele gostosa
de lábios sedosos
vermelhos molhados
esperando por mim.
Dou-me à morena
beijos chupados
em todos os lábios
das mãos o carinho
em seu corpo suado.
Dos olhos
o desejo orvalha
cada gesto
Como querer
estrelas na palma da mão
A cada passo
seduz de corpo inteiro
fecha os olhos
e voa pelas entranhas.
Olhos nos olhos
pulsam aos sonhos
as mãos animam lábios
Quase loucura
mas é tão real
como beijos
que buscam a alma
Diminui a distância
somos crianças correndo
a passos firmes
apostando beijos
Quase inocente
se perde em desejos.
Deixem que os sonhos
vertam lágrimas
exale o cheiro
de amores rasgados
que os sonhos
molhem de sangue
meus pés.
Solte teus cabelos ao vento
deguste-me em teus beijos
quero embebedar do mel
de tuas entranhas
sentir teu colo
rolar no solo esquecer da noite
ver a manhã florescer
na areia da praia
despida em seus sonhos
olhar nos olhos
sentir na alma
tuas mãos atrevidas
afagando lembranças.
A magia ronda os olhares na noite
servindo em taça o veneno
de teus beijos
A cada passo cada abraço
mais perto do fim
Deixem iluminar os sonhos
sonhados a sós
Embriague calidamente
querendo o céu
Esqueça o tempo
todo bom momento
sinala o fim de quem ama só.
Sobrevoando a vida
pousando em teus seios
sentindo o sabor
derramado em teu colo
Suas mãos deslizam
sem censura sem pressa
sentir no peito
passos do calor
Olhar difuso pela janela
do coração
ver o orvalho esbugalhando
no chão
Apertar teus lábios
num beijo eterno
buscar na alma
o carmim da paixão.
Tua chegada
dentro de um poema
Outra vez
um sorriso a cada abraço
Outra vez
a espera de um longo beijo
Outra vez...
Outro poema molha de suor
(des)vestido das palavras.
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